
Pra início de conversa: o que dá pra esperar de um disco que tem uma música chamada Bling? Pensa nisso enquanto eu faço um preâmbulo.
Parece sem sentido falar mal do disco novo do Killers, já que muita gente já fez isso. Mas a maioria desses comentários pode ser traduzido como “viu só, eu não disse que eles eram uma armação?”. Pois bem, eu vou falar mal do disco novo deles. Mas eu antes tenho que explicar porque gosto do antecessor.
Digam o que quiserem os detratores, Hot Fuss é um ótimo disco. A veia pop de Brandon Flowers & cia. ali era a carótida (ou a jugular, não entendo lhufas de sistema circulatório), indo direto do coração pra cabeça, via pescoço. Mesmo as músicas mais apagadas do álbum não fazem feio. E as demais são brilhantes. Fato: Mr. Brightside é uma das melhores músicas sobre paranóia romântica, ou síndrome do corno-de-véspera, já escritas. A crítica, à época, era de que o disco não traz nada de original. Bem, se você está procurando algo de original, talvez música pop não seja o lugar certo pra encontrar.
Trabalhemos então, com o entendimento de que o Killers é uma banda pop. Acordo? Passemos então à cidade do Sam.
Comparar o primeiro disco da banda com esse Sam’s Town é como comparar as Galleries Lafayette ao Sam’s Club. No que o primeiro era glamour, esse é brega. A banda já tendia ao kitsch (”I’ve got a soul/ but I’m not a soldier” faria você sentir vergonha alheia se não fosse uma parte tão pequena da letra de All These Things I’ve Done), mas esse disco faz a vitrine das Casas Bahia parecer chique. A tendência à grandiloquência (vide Glamourous Indie Rock’n’Roll) desbanca para a megalomania aloprada de troços como a descabida For Reasons Unknown. Ainda pior, Uncle Jonny traz backing vocals de musical da Disney e o que parece ser um xilofone.

The Killers: se juntando aos Los Hermanos para provar que pretensão e pêlos faciais definitivamente não combinam.
Pra ser mais geral nos (muitos) problemas do disco. Os sintetizadores resvalam no pomperô dos 90. Todas, absolutamente todas, as músicas tem hordas deles, que entram sempre atropelando quando a voz cresce. E a voz só faz crescer. Quando segura a nota tentando soar épico, Brandon soa como se Freddy Mercury não tivesse batido as botas e hoje em dia retirasse seu sustento cantando para caipiras do meio-oeste americano em um cassino. E não é só no vocal: até no bigodinho ele parece a rainha. Enfim: no primeiro disco estava o melhor dos anos 80. Nesse, todo o resto. Aposto que tem uma gravata-teclado escondida em algum canto.
Mas o disco tem um feito e tanto: Bling consegue ser tão ruim quanto o nome.
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