Depois de levar Aaron Dessner e Stine, sua namorada dinamarquesa à espetacular casa do não menos fantástico Bob Nadkarni favela Tavares Bastos na quarta a noite (prometemos um pôr-do-sol espetacular mas burramente não me dei conta de que o sol se põe atrás da varanda casa), e ficar horas batendo papo com o dono da casa (Bob foi correspondente da BBC no mundo todo, e há quase 30 anos decidiu morar no lugar com uma das mais esplendorosas vistas do Rio), quinta-feira perguntamos se eles não queriam ir ao Maraca, onde ia ter jogo do Flamengo (não iria ver jogo de nenhum time que não fosse o meu).
Achamos bem legal ele gostar futebol (chegou a jogar na universidade), eles ficaram empolgados com a idéia. Quinta no final da tarde (quando ele já havia trocado o conforto do nosso lar tijucano pelo luxo do Sheraton) nos surpreendemos quando ele ligou avisando que não apenas Stine e ele, mas outras cinco pessoas iriam conosco ao jogo — um jogo que, a princípio, eu não fazia a mínima questão de ir, uma vez que nos últimos três jogos vistos no estádio o Flamengo tomou sete gols e não marcou nenhum. Em que pese o adversário ser o fraco Coritiba, é justamente nos momentos de moleza que o Flamengo vacila, e não curtia muito a idéia de levar sete pessoas que nunca foram ao Maracanã para ver um papelão do meu time (se bem que, nos últimos tempos, o maior show do Flamengo tem vindo das arquibancadas — e apenas delas).
Presos no engarrafamento carioca típico da hora do rush, eles demoraram quase duas horas para chegar a nossa, casa. Do lado de fora do estádio, muita gente ainda corria em busca de ingressos, e o cenário é bem pitoresco para um estrangeiro acostumado a organização dos eventos esportivos no primeiro mundo: muito cocô de cavalo pelo chão (da polícia montada), helicóptero a menos de 50 metros do chão levantando muita poeira, e bilheteria com uma chapa de aço e uma janelinha de dez centímetro a um metro do chão, o que obriga quem compra a quase se agachar e gritar para ser ouvido.
Entramos no Maracanã com um bom atraso, e, antes que pudéssemos escolher nossos assentos, gritaria da torcida, nos viramos, e Obina está estendido no chão. Pênalti! Instantes depois, Leo Moura cobra e a torcida explode. Os sete estrangeiros (Stine - pronuncia-se “istina” - Aaron e seu irmão gêmeo, Bryce Dessner, Ben e Kyle, músicos de apoio da banda, e as namoradas destes dois) tem pela primeira vez o gostinho de estar in loco com a maior torcida do Brasil. E pela primeira vez na vida, descobrimos logo em seguida, estão assistindo a uma partida de futebol profissional no estádio.
Uma vez instalados, começamos uma aula de Maracanã e Flamengo. O que eles gostam é de conhecer os palavrões — recurso lingüístico utilizado em profusão em estádios.
Um gol do Obina e termina o primeiro tempo. As namoradas de Ben e Kyle (seus nomes me fugiram, desculpa) abusaram da produção e no intervalo precisam ir ao banheiro retirar as meias-calças (estava muito quente). Segundo tempo começar bem morno, o que dá oportunidade de bater mais papo. É legal descobrir que, em que pese a fama, a grana e as constantes viagens ao redor do mundo, o pessoal é gente finíssima, dispostos a se divertir e desprovido de qualquer afetação.
Meio do segundo tempo, golaço do Ibson, logo seguido do gol do Maxi (”sabiam que ele é primo do Messi, do Barcelona?” — eles ficam surpresos com a informação) após uma espetacular demonstração de raça do Obina, e toda minha indiezice vai pro espaço, tiro a camisa e começo a rodar gritando o hino do clube e a versão rubro-negra do hit “Can’t take my eyes off of you” - a qual eles adoraram.
Perto do fim do jogo, Aaron fica apreensivo com a saída do estádio. Quando sobe a placa anunciando os acréscimos, decido que já está de bom tamanho e partimos. E eis que instantes depois escutamos gritos eufóricos da torcida, e voltamos para as cadeiras. A torcida começa a gritar “Obina”, mas logo os gritos são sufocados por outros mais fortes clamando “Bruno”. Os gringos acham divertidíssimo que o goleiro seja meu xará.
Atendendo aos pedidos da galera, Bruno atravessa o campo e marca o quinto gol da noite. Contagiados pela empolgação da torcida, e de quebra pelo belo futebol apresentado, saem do estádio mais sete rubro-negros.
